Este depoimento foi gravado em junho de 2008. A transcrição se manteve estritamente fiel à fala de Manoel, com a edição se limitando quase só à reordenação da narrativa, para que temas relacionados ficassem próximos no texto, e à exclusão de algumas passagens de menor interesse. Quem conheceu Manoel, certamente reconhecerá sua voz aqui.

Espinheira

Eu morava na Espinheira. Meu lugar é a Espinheira, umas quinze ou vinte casas. Tem a Vide perto, o Castro, lá em cima, Casal Dias … Tudo isso fica em um círculo mais ou menos de um quilômetro, aí tem umas cinco aldeias. A minha freguesia, São Martinho da Gândara, tem umas quinhentas casas e duas mil e quinhentas pessoas aproximadamente.

Os homens mais bravos naquela região eram o Seu José Borges, José Danado, avô de Rosalina, e Manuel Capela, meu avô materno. Meu avô era grande, tinha muitas terras e o Seu José Borges tinha ainda mais do que ele. Eram os líderes, as duas pessoas mais importantes, mais em evidência ali na Espinheira, José Danado e Manoel Capela. Depois tinha outros mais, ainda tinha outros. 

Meus dois avôs eram lavradores, tinham terra. O lavrador que tinha terra era classe média. O que alugava terra já era rico. Meu avô materno tinha muitas terras. Agora como tinha sete filhos, na hora que dividia ficava só uma terra para cada um, um ganhava a metade da casa… 

Meu avô era muito bravo. Quando meu pai casou com minha mãe, eles ficaram seis meses ou um ano juntos, eu sei que eles brigaram, os dois. Ele mordeu um dedo do meu pai. Meu pai era do exército, sabia brigar, era brigão, e meu avô ele não podia brigar com ele porque ele era mais velho, meu avô mordeu um dedo dele, quase cortou o dedo dele todinho. Aí eles se separaram, dividiram a casa ao meio, porque eles moravam juntos, meu pai ficou com uma parte da casa e ele ficou com a outra metade para ele e para minha avó.

Manoel Capela, eu jogava cartas com ele. Uns três anos antes de eu vir para o Brasil, ele teve um acidente vascular. Ele tinha uns 70 anos, mais ou menos. Ele teve uma congestão cerebral, em 1938. Aí ele ficava no sobrado, em cima, no segundo andar. Eu ia jogar com ele bisca, quando meu pai me deixava. Eu passava uma, duas horas jogando cartas com ele. Eu trepado na vinha, em cima de uma travessa de madeira que tinha, de frente para a janela do sobrado, e ele dentro do sobrado. Eu ficava de fora, na videira, e ele ficava na janela, eu era pequenino e ele era grande, ele ficava em pé e eu, em pé também. Ele era doidinho para jogar comigo. Porque ele não tinha o que fazer. Ele tinha ficado inválido, gaguejava, não descia do sobrado, não dava ordens. Andava, mas andava com uma bengala, agarrado nas paredes. Meu pai me deixava jogar porque era para agradar ele, agradar o velho e minha mãe também. A gente ficava às vezes uma hora ou duas, à tarde. Quando eu vinha do colégio e não ia trabalhar, passava em casa para pegar alguma coisa, meu pai me dizia “vai jogar com teu avô”. 

Família

Meu pai era de uma família onde tinha duas mulheres e dois homens. O irmão veio para o Brasil e ele ficou sozinho, trabalhando com as minhas duas tias. Ele era mais novo do que elas. Ele esteve no exército durante 18 meses, foi soldado, meu pai. 

Meu pai era muito enérgico, muito exigente com os filhos. Eu fui criado debaixo de um certo regime, uma educação dura. Eu tive uma vida muito aperreada, porque eu era o filho mais velho, meu pai era um tanto ou quanto severo e eu tinha que obedecer e obedecia. Ele me ensinou coisas muito boas também, embora fosse exigente, mas foram boas lições.

A minha mãe era muito boa, bondosa. O meu pai era muito exigente, mas ela se dava bem com ele. Ele era mais novo do que a minha mãe seis anos. Ela era muito organizada e tinha uma experiência de lavoura muito boa, porque ela era a mais velha da família do meu avô – dos irmãos todos, ela era a mais velha. Ela tinha muito conhecimento sobre o que fazia e trabalhava muito. 

Meu pai morreu em 1974, com setenta e um anos. Ele fumava muito, morreu de cigarro, de fumar, com uma bronquite. A minha mãe morreu com noventa e quatro anos. Ficaram quarenta e oito anos casados.

Somos sete irmãos, quatro homens e três mulheres. Quando eu vim para o Brasil em 1940, o meu irmão depois de mim tinha cinco anos, ele nasceu em 1935. Eram todos pequenos, danados. Depois, em 1953, dois vieram comigo, depois veio o outro. Meus três irmãos vieram para o Brasil comigo e, das minhas três irmãs, uma está em Paris e as outras em Portugal. De modo que nós nos espalhamos assim. 

Em Portugal, naquele tempo, as pessoas saíam, era praxe. Hoje tem quinze milhões de portugueses, tem cinco milhões fora de Portugal e dez milhões em Portugal. Cinco milhões estão no mundo todo, nos cinco continentes. Cinco milhões. Isso aconteceu. Talvez seja o país da Europa que mais emigra, Portugal. De Portugal se saiu muito porque o camarada era filho de um lavrador, aí o pai morria, eram cinco filhos, dividiam as terras. Ou saía de Portugal ou tinha que trabalhar na indústria, que nesse tempo era pequena, não havia indústria desenvolvida, como tem hoje, não havia fábricas, empregadores. Então, ou iam para fora do país ou iam trabalhar nas fábricas.

Lavoura

Era uma vida difícil, não é? Meus pais sempre só trabalharam na lavoura. Era uma família de lavradores. 

Uma parte das terras que meu pai tinha eram alugadas e outras terras eram próprias da família mesmo, que ele ganhou quando casou e minha mãe também recebeu alguma terra do meu avô, para que eles pudessem começar a vida deles. 

Meu pai produzia trigo, milho, a maior parte era milho, verduras em geral, tínhamos as videiras. O vinho era só para consumo. Tínhamos sempre vacas, duas ou três vacas. Vendíamos todo dia 25 litros de leite na fábrica. Quando elas estavam dando bom leite, eram 10, 12 litros por dia. Meu pai também comprava bois, vendia bois. 

Meu pai trabalhava com minha mãe na terra e nós também, quando vínhamos da aula. Eu quando vinha da aula, às 6 horas da tarde, no caminho eu já parava com a minha bolsa, meus cadernos, meus lápis, minhas coisas e ia trabalhar durante duas horas no campo mais. Eu com nove, dez anos, onze anos de idade, da aula vinha trabalhar. Depois, de noite, quando eu chegava em casa é que eu ia fazer o dever da escola. Eu ficava no caminho. O professor tinha uma moto. Se dez ou quinze minutos depois de ele passar na moto eu não viesse, meu pai já me esculham.., já me falava. Ele controlava o horário pela passagem do professor.

Naquele tempo, não tinha esse negócio de pagar. O vizinho vinha trabalhar conosco, para lavrar a terra, gradear a terra, semear e tudo o mais. Ele vinha trabalhar durante dois, três dias, em uma semana, e depois meu pai ia trabalhar com ele, na outra semana. Na hora de (?) o milho, era dez, quinze, vinte pessoas arrancando aquelas ervas para o milho poder crescer. Os caras que trabalhavam ganhavam o almoço, com vinho, e quem dava era o dono da terra. Ainda tinha merenda, às vezes, também. No verão, nove horas da noite ainda está sol, o sol está se escondendo. Então, ainda tinha uma merendazinha, às seis horas da tarde. 

Algumas pessoas ganhavam ao jornal, eram jornaleiros, lá uma pessoa ou outra. Vinha, ganhava um xis e ganhava a comida. Mas era muito pouco, o normal era um ajudar o outro. Também se contratavam moços de serviço de um lugar próximo de Oliveira de Azemeis chamado Arouca. Eles vinham trabalhar conosco e ganhavam um xis por mês.

O milho era colhido com a espiga e o folheto e aí se botava numa casa grande, enchia aquilo tudo, e depois aquele milho era desfolhado a mão, à noite. Aí também se convidava as pessoas para as desfolhada que era uma festa. Uns ajudavam os outros. Hoje vai ter uma desfolhada na casa do Seu Manoel Pinho. Aí iam dez, quinze vizinhos, à noite, depois de oito horas, jantavam e iam desfolhar até meia noite. Tinha um vinhozinho, às vezes um pão de trigo. Trabalhavam das oito a meia noite. Depois, no fim, tinha uma sanfona e eles ficavam dançando até duas horas da manhã. Surgia namoro, eles casavam assim, era nas desfolhadas. Ou na feira, no fim de semana, na missa, na festa de Oliveira de Azemeis, La Sallete, que era uma festa de três dias… 

Outra coisa que tinha era pisar as uvas. Eu, menino com treze anos de idade, ia pisar uvas na casa da Dona Ana, avó de Rosalina. Dona Ana mandava recado para mim e eu ia pisar uva. Ela tinha um moço de serviço, um empregado, e eu ia à noite pisar uvas com ele, levava duas horas pisando. Quando a gente saía, só tinha bagaço e o líquido. Às vezes, vinha uma terceira pessoa. Meu pai era muito amigo da Dona Ana. Às vezes, ele também ia. 

O que se produzia no campo minha mãe ia vender na feira, aos sábados e domingos, ela é que vendia no mercado. Minha mãe ia para a praça, como chamava, para vender. Levava para a feira em um carro puxado por um par de bois e punha os produtos em cima de uma calçada, em um lugar já marcado, cativo, cada um tinha o seu, pagava um imposto para isso. A feira era em São João da Madeira. 

Quando eu tinha doze, treze anos, eu ia de manhã para a feira, para levar o material no carro de bois, já não era meu pai, era eu, eu que trazia os dois bois com o carro para casa. Da nossa casa até a feira em São João da Madeira, deve ser uns quinze quilômetros. A gente saía de casa três horas da manhã, quatro e chegava lá duas horas e pouco depois. Depois ficava lá, descarregando e quando amanhecia vinha embora. Todo fim de semana tinha esse negócio. Vendíamos batata, cebola, alho, cerejas, laranjas, tudo que tinha se vendia. A gente não comprava nada para vender, era tudo produzido ali. 

Minha mãe vinha da praça, umas duas horas da tarde mais ou menos, almoçávamos e depois a gente saía, ia para festas. Tinha festa na igreja, tinha festa na Vide, saía com os colegas, tomar banho no rio no verão…

Quem fazia a minha roupa era a minha irmã Olívia. Toda a roupa que eu trouxe para o Brasil foi feita por ela. Sapato comprava na feira, mas sapato a gente só usava no dia de domingo. Eu ia para o colégio descalço. Nós ficávamos na escola descalços. Quando tinha neve, eu ia com uma espécie de tamanco. Em casa, brincando, era descalço. Todo mundo andava descalço. Agora quando a gente ia entrar no curral, que tinha esterco, punha um tamanco. Era pobre. Dia de domingo, quando eu ia visitar meu avô paterno, na Póvoa, então eu tinha uma bota. Quando eu ia na festa de São Martinho, dos santos, eu vestia a bota. Quando eu ia ver a banda de música tocar, ia em uma desfolhada, que eu não ia desfolhar, eu era menino, ia com minha mãe, ficava brincando com meu colegas, às vezes eu levava a bota.

Médico, a gente ia em Oliveira de Azemeis. Quando alguém ficava doente, eu ia a pé, correndo, em Oliveira, chamar o médico. Aí ele vinha a pé também, não tinha carro nem ônibus. Todos os dias, à tarde, o médico descia de Oliveira para São Martinho para dar consulta e vinha a pé, cinco quilômetros. Eu ia comprar remédio em Oliveira de Azemeis, a pé. Eu era menino, com sete, oito, nove anos, com dinheiro no bolso e ia comprar o remédio.

Escola

Eu estudava no colégio, mais ou menos a uns dois quilômetros da minha casa. Era um prédio grande, bonito. Fiz o curso primário em Portugal. Eu comecei a ir para a escola com sete anos feitos. As aulas começavam às 7 horas da amanhã e acabavam às 11 horas, aí o sujeito vinha almoçar e quando era 1 hora voltava de novo, era de manhã e de tarde. Era oito horas por dia, uma escola pública. 

Uma turma ia sempre com o mesmo professor. Se um aluno perdia o ano, ele ia para outro professor, mudava de professor. Os professores eram dois homens e uma mulher. 

Naquele tempo, as meninas quase não iam para o colégio, não se mandava em Portugal ainda. Minhas irmãs pouco foram a aula, talvez um ano ou dois cada uma, não terminaram nem o curso primário, não era praxe. Só os homens é que estudavam. Agora os homens tinham que estudar porque tinham de ganhar dinheiro, tinham de ir para fora, quem não soubesse ler não podia nem sair de Portugal. Todos os meus irmãos fizeram o curso primário também, direitinho. Era homem, tinha que ir para a escola, não podia deixar de ir. Agora mulher tinha mais liberdade, ia ou não ia, dependia do pai e da mãe. O homem era obrigado. Meu pai iria para a cadeia se não mandasse para a escola, meu pai seria chamado à Câmara Municipal para prestar depoimento, porque é que não mandou o filho para a escola, era castigado. De forma que todos nós temos curso primário, os homens. E as mulheres fizeram parcialmente, dois, três anos e depois saíram. Elas escrevem uma carta e assinam e tal, mas foi coisa de dois anos que elas aprenderam. 

A gente ia para a escola, ia acompanhado pelo caminho, um vinha de cima, do meu lado, outro vinha de baixo, outro vinha do lado esquerdo, do lado direito… Tudo a pé. Não tinha transporte. 

Às vezes, a gente saía do colégio, arrumava uma desculpa qualquer e ia tomar um banhozinho no rio, depressinha, chegava em casa mais tarde um pouquinho e dava uma desculpa qualquer.

Eu era um aluno muito aplicado. Quando terminava os quatro anos, quem era aprovado pelo professor era então chamado para fazer um exame, ia para uma junta em Oliveira de Azemeis, vinham uns professores de fora, um salão muito grande, um prédio muito grande, quando eu vou a Portugal eu passo lá sempre. O exame não era feito na aldeia, era em Oliveira de Azemeis. Entre os 26 colegas da minha classe, eu fiquei com distinção, fiz a melhor prova, eu e um outro. Teve um reprovado e vinte e três ficaram aprovados, só aprovados com nota suficiente para passar.

O meu caso, eu lembro bem, eu tenho uma casa assim assim, com tantos metros quadrados e eu quero cobrir essa casa com telhas. Uma telha mede de comprimento quarenta centímetros e em largura mede vinte e quatro centímetros e eu quero que você me diga de quantas telhas eu vou precisar para cobrir essa casa. Esse foi o meu problema. Eu acertei bonitinho. Eu multipliquei o comprimento pela largura e achei o tamanho da telha. Depois dividi os metros quadrados do telhado pelo tamanho da telha, tantas telhas. Essa foi uma prova. Tudo é simples, quinze minutos, vinte minutos cada coisa dessas. A prova de português, eles mandavam a gente abrir o livro e, onde abrisse, a gente lia aquela folha e depois eles começavam a fazer aquelas perguntas sobre a gramática, sobre pronome e não sei quê e tal e a pontuação e coisa e tal. A minha folha foi sobre o poder da locomotiva, era uma história em duas folhas de papel. Aí ele mandou eu ler e eu li que foi uma maravilha. Aí depois ele me perguntou assim, “lê essa frase assim assim, onde é que está o substantivo”, “é a palavra tal”, “onde é que está o adjetivo”, “é a palavra tal”. Ele mandava ler um pedacinho e aí “agora diga onde é que está o substantivo nesta frase”, eu dizia, “onde é que está o adjetivo”, “aqui”. Depois, ele me mandou ao quadro para escrever, parece que ele mandou. Escrever não sei o quê. Essa foi a prova de português. De matemática, foi o negócio da telha. Agora, o desenho, eu tinha até o desenho aqui, que eu trouxe, era uma vasilha de botar água, assim barrigudinha. Esse desenho está no meu arquivo. Eu tirei uma nota boa também no desenho. Geografia, não sei o que foi que ele me perguntou, mas eu também respondi bem. Eu também era bom em Geografia, era danado mesmo. Mas não me lembro bem o que ele me perguntou. Parece que foi sobre o caminho marítimo para a Índia, para eu falar onde é que ficava a África, uma coisa assim desse tipo, onde é que ficava Macau, isso no mapa, eu tinha que ir lá e mostrar, Timor… Foi uma coisa desse tipo assim. Tinha professor de História, de Geografia, de Matemática… Foram cinco coisas. 

Prova Pratica

Uma coisa engraçada… Tinha lá uma professora que era professora não sei de quê, me esqueci agora o que ela fazia, ela me interrogou também. E teve lá um momento, depois de eu fazer tudo, acho que eu tinha dormido mal, preocupado com a prova, eu dei uma cochilada, aí fiz assim, despertei, e ela olhou para mim e riu pra porra, deu uma risada. Eu já tinha feito tudo, estava dormindo e ela me olhou e riu. 

Conclusão: tirei uma nota maravilhosa. Quando saiu a relação dos aprovados e eu fiquei distinto, foi uma festa. Quando eu cheguei lá na Espinheira, eu comecei a gritar alto “fiquei distinto, fiquei distinto”… e o pessoal todo doido, “o que que foi, o que que foi? Manoelzinho ficou distinto, Manoelzinho ficou distinto”… e correu logo naquelas dez casas próximas, correu a notícia de que eu fiquei distinto. Eu gritava, virei para o meu avô, “fiquei distinto, fiquei distinto”… E todo mundo, “rapaz, entre vinte e seis, o camarada ficou em primeiro lugar, ele e um outro, os dois ficaram distintos”. 

Quando eu estive em Portugal, em 1947, seis anos depois de vir para o Brasil, eu visitei meu professor, professor Godinho, e ele me tratou muito bem, ficamos muito amigos, fizemos uma porção de passeios juntos. Quando eu vou a Portugal, vou visitar a sepultura dele.

Atravessando o Atlântico

Seu Domingos, pai de Rosalina, era muito amigo do meu pai, inclusive arrendava umas terras para ele, meu pai era muito relacionado com ele e com a Dona Ana, a avó de Rosalina, e também com o avô de Rosalina, Seu José Borges, que morreu em 1938. Quando Seu José Borges morreu, meu pai passou muitos dias tomando conta dele. A gente era muito amigo e meu pai, nessa altura, arrendava terra deles. Depois, os filhos dele no Brasil, o pai e os tios de Rosalina, Seu Domingos, José Borges, Antônio Borges, escreveram uma carta perguntando o que ele queria. Meu pai disse que não queria nada. Aí eles mandaram uma pessoa lá comprar uma porção de bacalhaus, quatro ou cinco bacalhaus grandes, bonitos, e mandaram de presente para ele, porque ele passou aqueles dias todos tomando conta do pai deles. Dona Ana morreu em 1944, Seu Borges, em 1938, ela ficou seis anos viúva. Meu pai ficou uma espécie de assessor dela, ajudava, dava ideias e ficou pagando a renda para ela também das terras que ele alugava.

Meu pai pediu para Dona Ana para ele me trazer para o Brasil, para pedir para Seu Domingos, o filho, que estava aqui no Maranhão, para ele me levar. Em 1938, eu tinha onze anos e daí a dois anos eu viria para o Brasil. Eu estava lá tomando conta dos bois, que eu era pequeno… Eu estava longe de saber que eu viria para o Brasil. 

Eu vim em 1940, saí de lá em 31 de outubro de 1940, de casa. Eu vim para cá com treze anos, fiz quatorze três meses depois que cheguei. Eu cheguei em janeiro e fiz, em março, quatorze anos. Vim no navio Siqueira Campos, com a família do Seu Silva, casado com uma tia de Rosalina. Seu Silva era o responsável por mim, eu era de menor.

Meu pai foi me deixar no trem no Porto. Quando eu peguei o trem, ele estava lá, nós nos despedimos. Saí de tarde de casa, embarquei a noitinha, seis horas, no Porto, no trem da noite, cheguei de manhã cedo em Lisboa e lá fui direto para o navio. O navio ia sair daí a dois dias, ou qualquer coisa. 

Navio Siqueira Campos

Cheguei no Maranhão no dia 9 de janeiro de 1941, dois meses e nove dias viajando, meu navio foi preso em alto mar… O navio trazia material de guerra para o Brasil, vindo da Alemanha, de trem, por terra, e nós ficamos no navio de 1º de novembro até o dia 20 de novembro, esperando o trem chegar. O trem chegou e carregou essas caixas, botou dentro do porão[1].

Isso foi no porto de Lisboa, no Cais do Sodré. 

Começou a ter a missa, eu fui ser sacristão de bordo. O padre, que era francês, convidou o Zé Silva para ser, porque era filho do Seu Silva, filho de gente rica. Zeca não quis ser sacristão. Então, Seu Silva disse “você quer ser sacristão”, eu disse “quero” e eu lá fui aprender latim, durante dois dias, para responder, naquele tempo se respondia em latim, dominus vobiscum, et cum spiritu tuo, aquelas coisas, eu sabia responder tudinho. Aí, então, seis horas da manhã, eu levantava, tomava banho, um banho fresquinho, com a água direta mesmo do Rio Tejo em cima de mim, fria pra porra. Me vestia lá, paletó, e ia para a missa. Me penteava, não tinha vaselina para passar no cabelo, lavava o cabelo com sabão. O navio tinha 634 passageiros a bordo. De manhã, 6 horas, eu saía tocando o sino, no navio todinho, para acordar o pessoal para ir para a missa. Na missa, tinha umas quarenta, cinquenta pessoas. Ia para a missa, lá eu respondia direitinho e quando terminava eu ia tomar café e depois eu ficava por ali, conversando com as meninas do Seu Silva e tudo o mais. 

Por causa dessa coisa dos armamentos, nós ficamos 20 dias em Lisboa, com o navio preso. Eu saía todo dia de manhã, com Seu Silva, ali por perto. 

Aí nós saímos de Lisboa no dia 20 de novembro. No dia 23 de novembro, três dias depois, o navio foi preso em alto mar por dois navios ingleses. O mar estava revolto, o pessoal descia do navio em uma escada de corda e teve lá uma escada que se soltou e caíram sete ou oito marinheiros no mar. Mas pegaram todos eles, eles foram novamente para o navio. Aí eles assumiram a direção do navio e o navio foi para Gibraltar, uma noite e um dia, estava perto, eram só três dias de viagem, nós ainda estávamos pertinho da costa da Espanha. Aí chegamos lá e ficamos um mês certinho[2]

A viagem durava normalmente uns dez dias. No fim da história, nós chegamos no dia 1º de janeiro de 1941 em Recife e eu depois eu ainda vim pela costa, no navio Itanajé, e cheguei em São Luís no dia 9. 

Seu Domingos estava me esperando na rampa, com meus dois tios.

No Brasil

Eu vou dizer, eu sofri muito na minha chegada, eu sofri. 

Eu fiquei na casa do meu tio Sebastião, comendo e dormindo. Não pagava nada. A casa era na Rua Cândido Ribeiro, 127, perto da fábrica de tecidos que tinha lá.

Eu cheguei em uma sexta-feira ou sábado e logo no domingo eu fui em um sítio dos vizinhos do meu tio, lá no Anil. Sempre que eu passo lá, eu olho a casa. Eu fui lá passar o dia. 

Na segunda-feira, eu tomei café e 6 horas da manhã, eu saí, fui para a Lusitana. Seu Domingos estava me esperando. Ele estava sentado no escritório, levantou, me abraçou e aí me explicou umas coisas. “Você tem que obedecer a fulano, fulano e fulano, todo mundo, mas os seus patrões são eles e qualquer coisa fala comigo. E não coma nada aqui, se você sentir fome, você me pede e eu lhe dou, porque aqui o pessoal tem mania de enfiar coisas na boca e não pode. Se você quiser comer uma castanha de caju”, e aí ele me mostrou uma castanha, “você me pede e eu lhe dou, mas não pega a castanha e bota na boca, não pode”. Dona Ana, a mãe dele, antes de eu sair de Portugal, me disse “meu filho, quando tu fores varrer a casa, se tu encontrar dinheiro no chão, tu leva para o patrão, porque esse dinheiro eles sempre botam uma moedinha no chão para ver se você fica com ela”. Aí eu já sabia que, se encontrasse dinheiro, eu tinha que levar para o Seu Domingos. Eu encontrei, mas demorou muito, acho que foi até casualmente, eu contei as moedas e entreguei. Teve umas poucas vezes, mas encontrei, foram muito poucas vezes, talvez uma ou duas ou três vezes.

Quando eu cheguei, passei uns seis meses com uma professora particular para me adaptar à língua e aos costumes da terra. Meu tio sugeriu isso. Era uma hora por dia, à noite, depois do jantar.

No fim de seis meses, meu tio separou da minha tia, ela foi morar com a irmã e eu fiquei morando com ele sozinho. Veja a minha vida. Aí ele falou “Manoel, agora você não pode mais ficar comendo aqui, porque não tem comida, não tem cozinheira, não tem nada. Eu vou comer em hotel. Você fica dormindo aqui comigo e vai passar a comer na casa da minha cunhada, na Rua do Ribeirão”. Ela morava em um sobradão, que era dela, era viúva e era irmã de Dona Mariana, a mulher do meu tio, que foi para o Rio com os filhos, foi se embora. “Lá já está meu filho”, ele era filho de criação dela, “e você fica lá também”. Aí eu fiquei comendo lá, almoçando e jantando, e dormia e tomava café com meu tio, todo dia de manhã. Eu fiquei um bocado de tempo lá, um ano, não sei quanto. Chegou um ponto em que ela não quis mais que eu ficasse lá, me deu a entender, arrumou uma desculpa, acho que ela até viajou. Eu sei que eu não fui mais comer lá – eu também não pagava nada… 

Aí eu fui comer na casa do meu tio Manoel Reis. Meu tio Sebastião pediu para ele. “Rapaz, eu estou comendo em pensão, a minha cunhada vai viajar” (ou não quer mais ele, não sei o quê). Aí eu passei a almoçar e jantar na casa do Seu Manoel Reis, durante dois ou três anos eu fiquei lá. 

Dois ou três meses depois que meu tio Sebastião me mandou comer na casa do Seu Manoel Reis, ele desalugou a casa, porque a casa era só ele e eu, aí ele entregou a casa. A casa não era dele, parece que era alugada, não sei, eu sei que ele encerrou e foi morar não sei para onde, aí para o subúrbio. Aí foi dizer para o Seu Domingos “olha, rapaz, eu aqui não posso mais ficar com Manoel porque vou morar (não sei aonde)”. Ele morreu novo, nos anos 60, depois que nós inauguramos o auto-serviço, nós inauguramos em 61, ele ainda era vivo.

Aí Seu Domingos me mandou dormir na mercearia, em cima, no quarto de goma. Tinha uma rede, eu dormia lá. De manhã, eu tomava café com Seu Domingos e ia trabalhar. Almoçava meio dia na casa de Seu Manoel Reis, aí ia trabalhar. À noite, ia jantar na casa do Seu Manoel Reis e depois, de lá, eu saía para o colégio, o Centro Caixeral, até dez horas. Mais ou menos uns dois ou três anos, eu fiquei nessa coisa. 

Dona Nizete, mulher do meu tio Manoel Reis me tratava bem, ela era muito exigente, mas me ensinou muitas coisas boas, ela me educou. Foi a pessoa que me educou, porque ela me ensinou a comer, a me comportar, me ensinou etiqueta … Eu era incivilizado, ela me ensinou a me vestir, a fazer barba, tudo ela me ensinou, ela me ensinou como um filho. Ela era toda cheia de protocolo, ela dizia “você coma devagar, mastigue”… 

O tio Manoel Reis e Dona Nizete

Eu ganhava dez mil réis por semana, o mínimo era mais ou menos cem, naquela altura, mas dava para mim, porque eu não pagava nada, eu não pagava a comida, eu ia a pé comer, vinha para o colégio a pé e eu tinha a roupa que trouxe de Portugal, que durou um tempinho… Eu não tinha problema maior. 

Em 1945, Seu Domingos me disse “Manoel, agora você tem 18 anos e você vai morar em república”. Eu fui morar em uma república, na Rua 28 de julho, 139. 

Mário Araújo era meu colega de quarto, éramos como irmãos. De 1945 até 1953, oito anos. Na Rua 28 de julho, até 1949. Depois fomos para a Rua do Egito, em frente ao Cine Roxy, por dois ou três anos. Depois fomos para perto da Igreja de São Pantaleão, bem juntinho da igreja, um bangalô bonito, aí já eram só quatro pessoas.

Eu comprei a biblioteca do Seu Raul, em 1946, e comecei a ler. Ele queria vender, veio me oferecer e eu comprei. Ele falava muito com os fregueses, no balcão, sobre a história de Portugal, ele conhecia tudo, versos de Camões, ele era um leitor de primeira ordem. Eu lia quando chegava em casa, à noite, e depois, de manhã, antes de ir para o serviço, ainda lia também.

Eu ia muito ao cinema também. Ia duas, três vezes por semana. Quando eu era menino, no fim de semana, eu ia na vesperal e na soirée. Isso também me ensinou muito. Eu era muito amigo do Seu Moisés Tajra e às vezes ele ou o porteiro me deixavam entrar sem pagar nada. A Lusitana era bem defronte.

Lusitana

A Lusitana foi fundada em 1921, onde era a Padaria Portuguesa, na Rua Grande. Seu Domingos comprou a mercearia e então veio para a Rua Grande, 141, mais atrás duas casas, do lado oposto, à esquerda de quem sobe. Em 1935, os sócios eram apenas Seu Domingos e Seu Augusto Noronha. Mais tarde, quando eu cheguei, os sócios eram Seu Raul, Seu Bernardino e Jairo Cardoso. Seu Domingos tinha, no mínimo, uns 40% e o resto era 10%, mais ou menos. 

A Lusitana abria às sete horas da manhã e fechava sete, oito horas da noite. 

Todos os dias de manhã, eu pegava as cadernetas na casa dos clientes que eram fregueses da Lusitana, com os pedidos. Tinha duas áreas, a área de cima até a estação e tinha toda aquela Praia Grande, Praça João Lisboa, Avenida Maranhense, Rua do Sol, Rua da Paz, tudo aquilo ali eu fazia. Eram seis a oito clientes; nas duas áreas, uns quinze clientes. Eu fazia isso de manhã, durante umas duas horas mais ou menos, eram doze ou quinze clientes, eu ia lá. Eu batia palma, ela vinha e eu perguntava “você não quer nada hoje? quer?” e eu esperava ela escrever. Eles tinham as cadernetas, escreviam o que queriam e eu pegava aquelas cadernetas e levava para Maria José, que era filha natural do Seu José Borges, irmão do Seu Domingos, também foi sócia depois, e ela colocava os preços e somava e depois se atendia. Eu mesmo, depois que chegava, ia aviar, escolher a mercadoria que o freguês pediu, botava no chão, em um cantinho. Depois vinha Seu Bernardino, conferia e botava no caixote e o empregado levava. Os empregados entregavam, com um caixote na cabeça ou, então, de bicicleta, nós tínhamos uma bicicleta com uma bagageira e se entregava também com uma bicicleta. Às vezes, até o Seu Domingos entregava e eu também, mas normalmente eram os empregados. A caderneta acompanhava a mercadoria. 

Tinha outros clientes que iam lá com a caderneta e compravam na hora. Os que iam sem a caderneta, se tirava um talão e depois colocava na caderneta o número do talão, tanto, o valor total já estava assinado, botava junto do livrinho dele e no fim do mês ele pagava. Era tudo fiado, para pagar no fim do mês. A inadimplência não era grande, porque se escolhia o cliente, tinha que ser pessoa conhecida. Até o dia 10, a gente esperava todo mundo pagar. Quando não pagava, eu é que ia cobrar. Oitenta por cento ou setenta iam pagar, trinta a gente ia cobrar. Tinha gente que atrasava seis meses, oito meses, mas era gente boa, a gente não mexia também, naquele tempo não tinha inflação e a gente tolerava. Quando ele vinha, pagava de uma cacetada só. Tinha freguês que só nos pagava de seis em seis meses. Mas não havia inflação. Mas, quando o camarada abusava, a gente não só cortava o crédito, mas cobrava juros também. Cobrança judicial muito pouco, a gente não fazia isso. Eles assinavam promissórias. Lá no meu cofre, eu tenho um envelope dessa grossura assim, cheio de promissórias de pessoas que não pagavam.

Placa Vender Fiado
Estampa em um quadro na parede do escritório da mercearia na Rua Grande

Em 1953, Seu Domingos mudou para Belo Horizonte, o meu percentual melhorou mais. Quando eu entrei para sócio, os outros sócios já tinham saído ou saíram e ficamos sócios apenas eu, Seu Domingos e Seu Bernardino. Depois, Seu Bernardino saiu e fiquei só eu e Seu Domingos. A Lusitana tinha, então, treze empregados.

Eu também ia na cabotagem, lá na rampa do palácio, na Rampa Campos Melo, às vezes passava a manhã lá. Ali descarregavam as alvarengas, que traziam as mercadorias dos navios, descarregavam a mercadoria e tudo ia para dentro do armazém, o que tinha a marca Lusitana, o rótulo, era nosso. Até 1947, eu fazia esse serviço. 

A melhor mercearia de São Luís era a Mercearia Neves. Depois, quando Seu José Borges morreu, nós passamos a ser os primeiros. Eram umas dez mercearias – Mercearia Neves, Lusitana, Aliança, Internacional, Resende, Brasil… 

Depois de um tempo, eu passei a ter uma participação no lucro, uma gratificação anual, eu era interessado, mas não era sócio registrado. Acho que foi em 1949 que eu entrei para sócio, tenho a impressão. 

Em 1949, Seu Domingos foi com a família para Portugal, com a mulher e com os filhos, de férias, e aí passou a Lusitana para mim e para Seu Cardoso e Seu Bernardino. Ele confiou muito em mim. Quando chegou em Portugal, ele disse para o meu pai “olha, eu estou muito satisfeito com o seu filho”, meu pai me fez uma carta me dizendo isso. Quando ele voltou, ele encontrou a Lusitana muito bem arrumadinha, certinha, tudo no ponto, direitinho. Aí ele começou a confiar em mim, vendo minha atividade, meu gosto pelas coisas.

Até 1960, não houve grandes mudanças. Houve melhora de limpeza, porque eu já viajava, já ia a Belém, Fortaleza, a Recife, via como funcionava e houve uma mudança na limpeza, na variedade de produtos, na organização. O atendimento era o mesmo, balcão, caderneta… O mix melhorou um pouco, porque houve uma fase de desenvolvimento no Brasil no pós-guerra e muitos produtos novos foram lançados, a gente tinha que ter mercadoria porque os outros tinham…

Em 1953, voltando da lua de mel em Portugal, o navio parou em Barbados e foi quando eu conheci um supermercado. Eu me empolguei com aquilo, comecei a estudar esse negócio, a ver e tal e coisa. Em 1959 foi que eu me animei e em 1961 eu botei a primeira loja de auto-serviço. 

Tinha um camarada que vendia máquina registradora, que era muito chato, me esquece o nome dele agora, tinha um nome engraçado, e ele me trouxe uma porção de subsídios, informações… Ele me perseguiu tanto, porque ele queria me vender as máquinas… Eu comprei umas três ou quatro. O pessoal que vendia equipamentos, carrinho, máquinas registradoras, nos ajudava muito, dava sugestões. As gôndolas foram feitas por nós mesmos. Só com aloja 10 é que se passou a comprar tudo pronto.

Eu fiquei, de um lado, com a loja de auto-serviço e, do outro lado, com o atendimento ao cliente da caderneta, vendendo fiado, mandando entregar e tudo, as duas coisas. Era cento e vinte metros, de um lado, no auto-serviço, e sessenta metros, do outro. Eram duas gôndolas nas paredes e duas no meio, era coisinha pequenininha, apertadinha. A caderneta só foi extinta em 1967, com a mudança para a Rua de Santana, quando se comprou a fábrica da Cola Jesus.

Quando abriu a loja da Rua Santana, todo mundo já estava ajustado ao novo sistema. A loja tinha mais espaço, espaço bonito, corredores largos, muita iluminação, com seis registradoras.

Eu sempre fui muito preocupado, sempre fui muito temeroso, mas eu agia porque eu lia, viajava, ouvia as pessoas… Até certo ponto, eu tive coragem. Quando eu comecei a ir para os Estados Unidos, eu me animei, fiquei deslumbrado. De 1970 até 1996, eu ia quase todo ano aos Estados Unidos. Eu via aquela pessoa falar, muita coisa foi baseada no que eles diziam, nas idéias que eles apresentavam, no que eu via eles fazerem. Eu me encorajei foi por isso, pelas viagens, pelas revistas, pelos conhecimentos, a gente via tudo aquilo e foi procurando se moldar, botar mais balcões, mais frio, mais carne, mais exposição, melhor atendimento e fazer a cabeça das pessoas. 

Foi um sacrifício filho da mãe, eu não queria passar por isso novamente, não. Sofri muito.


1Aqui a memória traiu Manoel. O navio ficou retido em Lisboa à espera de uma ordem de “livre trânsito”, solicitada pelo governo brasileiro à Grã Bretanha, que havia imposto um bloqueio ao comércio exterior com a Alemanha (nota do editor).  

[2]As datas estão aproximadamente corretas, o que é notável tratando-se de memória de eventos ocorridos quase setenta anos antes. Tendo deixado Lisboa em 19 de novembro sem autorização britânica, o navio foi apreendido em 21 de novembro, só vindo a ser liberado em 18 de dezembro (nota do editor).